RESENHA DO LIVRO VIRGÍNIA

ESTRATÉGIAS DE DESARMAMENTO (E.M)

Vamos falar um pouco mais sobre o romance Virgínia, de Stéfanie Sande. Deixo assinalado que o livro pode ser uma grande descoberta, sobretudo no público mais jovem. O amor entre duas garotas é tratado sem a costumeira bandeira levantada, sem o rancor típico das resistências entrincheiradas. Considerando a leveza oriunda da naturalidade da relação, o enredo não sublinha aspectos traumáticos. Sim, é possível tratar do lesbianismo (e outras tantas emergentes pautas sociais) sem o recorte do conflito e do sofrimento. Nem por isso a obra será menos profunda.

 

Em termos de narrativa, fiquei muito satisfeito ao ver a mudança de marcha no segundo terço da narrativa. A troca de vozes aponta para o amadurecimento da escritora. Não é fácil e não é comum ver essa alteridade realizada com sucesso. Em geral, quando não há planejamento, o livro fica sem pé nem cabeça. Virgínia nos oferece a dupla perspectiva, sem perder a lógica em nenhum momento. A oscilação espaço-temporal é apresentada de forma progressiva e a troca de vozes, de forma marcada e inequívoca. Portanto, em termos de planejamento, Stéfanie Sande surpreende e encanta.

O leitor será cativado pelo estilo e pelo tema, mesmo que não saiba precisamente identificar os pormenores da composição que, aliás, é assunto de escritores e críticos. Basta ao leitor o prazer do texto. Por isso mesmo não quero incluir o paralelo realizado com as cartas de Virgínia Wolf, uma sofisticação da mente inquieta da amiga e colega escritora. Acredito que o leitor deve se apaixonar por um texto à primeira vista, seja amando, seja odiando a sorte dos personagens, interagindo, participando, vociferando. a reflexão sobre a técnica narrativa é das coisas menos interessantes para o prazer do texto que precisamos estimular no público leitor. Aliás, é isso que conta e, infelizmente, "isso" está sendo esquecido por boa parte dos escritores brasileiros que querem fazer do livro um tratado acadêmico.

E o tema? Sim, é um tema contemporâneo. O compromisso do escritor é com o próprio tempo, nem que, para isso, passe a vida revisando o passado. A homoafetividade não teve da escritora o tratamento esperado. Não sei porque diabos convencionou-se cuidar do relacionamento homoafetivo de forma trágica. Talvez por conta da resistência que encontra numa sociedade profundamente preconceituosa. Mas... não é sempre assim. Em Virgínia não é assim. Como tudo o mais, a supressão de conflitos é uma estratégia. Vejamos a sutileza da abordagem.

A objeção sobre a inverossimilhança poderá incomodar. "Um amor desse tipo não há no Brasil". Gente chata existe desde os primeiros autores brasileiros a espetá-los com essa acusação. Sim, há relacionamentos como os de Virgínia. E não são poucos. A estratégia de naturalizar o que se convenciona como excepcional é um adicional de qualidade ao romance. Talvez aí esteja o ativismo autoral – eleger o recorte, as personagens, a interação e evidenciar determinas relações como não-conflitivas. Trocando em miúdos: são duas pessoas que se amam de forma verdadeira, espontânea e livre. Não há marchas, nem cartazes, nem arco-íris. A relação homoafetiva não encontra qualquer estranhamento e esse é o brilhante pulo do gato.

O livro é para adolescentes? Sim, entre todos que vão gostar de Virgínia, está o público teen. Isso é ótimo. Mas o romance não se limita a um determinado segmento. Meu pai, um octogenário nordestino de Gravatá do Ibiapina, adorou. Por quê?, perguntei curioso. Porque é bom. Traz o amor como ele é, intenso e natural. Li numa sentada. Existe resposta melhor? Ao que me conste, não há. Virgínia entra para o rol de livros brasileiros em que uma boa história e bem contada, de forma clara e objetiva, aprisionando o leitor que está mais preocupado com o enredo e com as personagens do que em se posicionar previamente sobre uma pauta política. Daí que Virgínia desarma o leitor pelo afeto. Não há outra estratégia mais eficaz.

 

Eduardo Mahon é escritor, mestre e doutorando em estudos literários – Unemat.